segunda-feira, 3 de abril de 2017

Ciro Gomes: "Vou para a última eleição em 2018"

O falante Ciro Ferreira Gomes andava calado. Um silêncio que era quebrado pela imprensa política, local ou nacional, apenas em declarações isoladas e rápidas durante eventos dos quais participava. Era momento de renovar pedido antigo de entrevista para as Páginas Azuis, até então objeto de pouca atenção do ex-prefeito, ex-governador, ex-ministro e ex-parlamentar. Desta feita, a resposta foi “sim”, restando apenas encontrar o momento em que a conversa seria possível, considerando sua agenda atribulada e o fato de ele dividir-se hoje entre seus endereços de Fortaleza e São Paulo. Tudo acertado para o dia 24 de março, uma sexta-feira.

O tal silêncio até virou barulho, porque Ciro, depois que recebeu O POVO naquela tarde agradavelmente chuvosa, desandou a falar e agitar a política. Aqui, Ciro se apresenta no melhor estilo Ciro. Bem articulado, agressivo, seguro nas respostas e pronto a encarar cada assunto, mesmo aqueles eventualmente incômodos. Ele fala sobre o momento nacional, Lava Jato, Lula, Eunício, Tasso, financiamento de campanha, a nova geração de políticos cearenses e, afinal, anuncia que se despede em 2018 do processo eleitoral. Gostaria de fazê-lo, claro, eleito presidente da República. Confira.

O POVO - O Brasil vive um dos momentos mais dramáticos de sua história. O que nos trouxe à situação que enfrentamos hoje?


CIRO GOMES - Basicamente, como fator ancestral, há um problema estrutural que se disfarça ciclicamente por momentos de consumismo populista. Lá atrás, no Plano Real, você cessa um imposto inflacionário pesado e a população vai ao consumo e começa a acreditar que aquele é um padrão de evolução, na qualidade de vida etc. O País tem problemas estruturais e podemos especular sobre eles. Há uma quebra, vem o período do Lula e há a explosão de preços dos commodities lá no estrangeiro, criando um outro momento artificial insustentável, ciclo que se encerra no terceiro ou quarto ano do governo Dilma (Rousseff). E a Dilma, ao invés de entender o que acontecia, de pedagogizar a inteligência popular, prefere aderir à marquetagem e vai à população simular que estava tudo bem. Infelizmente, a amargura da realidade impôs a ela um tarifaço, uma desvalorização cambial que subtrai quase 42% da renda do povo brasileiro, da noite para o dia, e isso vira uma miragem de inflação em vários preços, desconstituindo a base social, já precarizada, muito aceleradamente. Este é o pano de fundo no qual três grandes interesses, cada qual mais poderoso, se associam, não necessariamente conversando entre si: primeiro, o sindicato dos políticos, de A a Z, querendo o fim da Lava Jato e que permanece atuando pesadamente; o baronato brasileiro querendo tomar conta do orçamento, na medida em que como consequência prática nas finanças públicas do que retratei, do fim do ciclo das commodities, explode o déficit fiscal brasileiro e a proporção dívida-PIB sinaliza para um itinerante de iliquidez para o futuro, então, como aconteceu em todas as ocasiões, sempre, a plutocracia quer o controle deste orçamento para gerar excedentes, seja do jeito que for, para fazer face a este galope da dívida versus PIB; e, terceiro, um conjunto muito clandestino, mas, flagrante, de interesses internacionais. O mais imediato deles, petróleo, revogar a lei de partilha, privatizar, esquartejando, a Petrobras, e, no limite máximo, a trazida de volta do Brasil à sua condição histórica, centenária, de Protetorado do Império, contemporaneamente do Império Americano. Tudo isso, encerrando a ideia de um alinhamento diferente, em torno dos Brics.

Fonte: O Povo