domingo, 14 de janeiro de 2018

COLUNA DO DR. JÚNIOR BONFIM - Observatório


Observatório 



Viajando pelo interior de Minas, o arquiteto Marcos Vasconcelos encontrou um grupo de trabalhadores abrindo uma estrada:
– Esta estrada vai até onde?
– Muito longe, muito longe, doutor. Atravessa o vale, retorce na beirada da serra, quebra na esquerda, retoma pela direita, desemboca em frente, e vai indo, vai indo, até chegar a Ponte Nova, passando por baixios e cabeceiras.
– Vocês têm engenheiro, arquiteto, teodolito, instrumentos de medição?
– Num tem não, doutor. Nós tem um burro, que nós manda ir andando, andando. Por onde ele for, aí é o melhor caminho. Nós vai picando, picando.
– E quando não tem burro?
– Aí não tem jeito, doutor; nós chama um engenheiro mesmo.
O arquiteto seguiu adiante filosofando sobre as artes da burrice e da engenharia...

2018
Iniciamos um ano eleitoral. Estarão em disputas os Executivos e Legislativos Federal e Estaduais: Presidência da República, Governos Estaduais, Senado da República, Câmara dos Deputados e Assembleias Legislativas. Os cenários possíveis começam a ser pensados, pois o leque de possibilidades é amplo e movido por um dínamo, de certa forma, imponderável. Impossível análise consistente que desconsidere vetores de surpresa e imprevisibilidade. Como lembra René Remond, “o político tem características próprias que tornam inoperante toda análise reducionista, ele também tem relações com os outros domínios: liga-se por mil vínculos, por toda espécie de laços a todos os outros aspectos da vida coletiva. O político não constitui um setor separado: é uma modalidade da prática social.”

PRESIDENCIAVEIS
A preço de hoje, poderemos ter uma reedição de 1989: o protagonismo de Lula e do novo “Collor”: Jair Bolsonaro. Diferentemente do petista de 1989, um líder sindical que assustava o baronato, o Lula atual é um animador de massas (pai dos pobres e mãe dos ricos), ex-Presidente da República e que se consolidou como a principal liderança política do país. Pesa substancialmente contra seu projeto de retorno ao poder a caneta sancionatória da Justiça. Nada mais tenebroso para um postulante do que a pecha de uma candidatura impugnada. Parte desse enredo estará no ar dia 24 próximo, durante a sessão do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre. Se confirmada a sua condenação por um órgão colegiado, Lula estará inelegível, a teor do que dispõe a Lei da Ficha Limpa. Poderá ser candidato sob o amparo de uma liminar, mas isso o fragilizará bastante. 

PRESIDENCIAVEIS II
O futuro de Jair Bolsonaro é uma incógnita. Segundo o colunista Fábio Campos, “a ascensão popular de um personagem como Jair Bolsonaro só poderia ocorrer na quadra que se formou no Brasil após o advento do lulo-petismo, Lava-Jato, impeachment. Enfim, uma conjunção que acabou por gerar um imenso descrédito na política e no sistema representativo. Não deixa de manter aparências com o vácuo de 1989, que levou Lula e Collor ao segundo turno. Mas, não é provável que o ex-capitão do Exército consiga ir muito longe. Não tem partido, não tem tempo na TV, não tem alianças, não tem palanques, não tem conteúdo. Sua fala é um apanhado do lugar comum da misoginia de coturnos. Diante de seguidos mandatos, não há cristão algum que consiga encontrar algo de relevante que tenha proposto como deputado federal. Nada. Um deserto. A lembrança que sua trajetória emana é a da viuvez da ditadura, do prendo e arrebento.” Aguardemos.

GOVERNO DO ESTADO
A sucessão cearense começa com o governador Camilo Santana na dianteira. Na última pesquisa divulgada, ele está um pouco acima de 40% das intenções de votos. Mas, será que isto é motivo para euforia?! Uma retrospectiva das últimas eleições sugere cautela. Quando candidato à reeleição, mais ou menos um ano antes da refrega, Lúcio Alcântara (que tem perfil semelhante ao de Camilo, ou seja, sem muitas áreas de atrito), exibia índices acima de 50% e o apoio robusto de mais de uma centena de prefeitos. Mesmo assim, não logrou êxito. Lula e Dilma, que iniciaram suas campanhas vitoriosas com indicadores altíssimos (chegaram a ostentar mais de 70% das preferências), nunca venceram em primeiro turno. Ou seja, quem está no poder normalmente deve iniciar a campanha com larga margem de vantagem, a fim de que eventual perda de gordura ao longo da disputa não ponha em risco as chances de vitória.

GOVERNO DO ESTADO II
No caso do Ceará, há um agravante: a insatisfação da família Ferreira Gomes com a aproximação Camilo e Eunicio. É indisfarçável o desconforto de Ciro Gomes, o líder do clã, com esse namoro cada dia mais explícito. Fala-se no nome de Roberto Cláudio como alternativa da família. Se houver esse rompimento, teremos três chapas competitivas e a imprevisibilidade assumirá contornos mais significativos. Aguardemos.

PARA REFLETIR
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo... e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares... É o tempo da travessia... e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos.” (Guimarães Rosa)