O olhar
Muitas pessoas levam seus cães para passear; eu levo meus olhos para passear, eles se encantam com tudo (Rubem Alves)
Hoje me deparei refletindo sobre o olhar.
Hoje me deparei refletindo sobre o olhar.
Os olhos ao mesmo tempo em que são sensores do corpo são reflexos dele, percebem a luz e transmitem as informações das imagens ao cérebro que as transformam em conhecimento.
Desde à filosofia de Sartre à psicanálise de Freud e Laca, a dialética do olhar, que é a relação do nosso olhar com o do outro, é fundamental, e é o que nos constitui enquanto ser. Criamos um jogo de espelhos e construímos aquilo que chamamos de “eu”.
Os olhos são expressões das nossas emoções: sentimos dor, alegria, tristeza. Há pessoas que sorriem com os olhos. Há pessoas que falam com os olhos. Com os olhos acolhemos ou rejeitamos, focamos ou ficamos dispersos. Os nossos olhos confessam o que o nosso corpo sente, sem precisar de palavras. Eles têm o poder de nos encorajar e revelam verdadeiramente quem somos, todavia, ocultam verdades. Olhar com intensidade significa olhar com zelo, com percepção. Nos possibilita ver as coisas visíveis, mas também as que ainda não foram reveladas. Os anseios, ansiedades, dúvidas e sonhos, o que não se revela em palavras.
Cecilia Meirelles poetisa: ... Afinal, o olhar sem profundidade, incapaz de perceber as ambiguidades nunca fez parte da história. O olhar. Foquemo-nos no olhar correto. Tudo é o olhar. A maneira como olhamos, na maioria das vezes é apenas uma questão de escolha.
Rubem Alves nos relembra que Nietzsche disse que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver, porque é através dos olhos que as crianças, pela primeira vez, tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo. Os olhos têm que ser educados para que a nossa alegria aumente. O olhar tem o poder de despertar ou, de intimidar a inteligência. O olhar tem um poder mágico!
E nos exortava : cuide dos seus olhos…
Em um dos seus textos narrava sobre a beleza dos ipês amarelos: ...Também eu acho sacrilégio chegar perto e pisar as milhares de flores caídas, tão lindas, agonizantes, tendo já cumprido sua vocação de amor. Mas sei que o espaço urbano pensa diferente. O que é milagre para alguns é canseira para a vassoura de outros. Melhor o cimento limpo que a copa colorida.
Certo dia, ao sair de casa vi muita sujeira nos bancos da praça provocada por um bando de pássaros que teimavam em fazer das copas das árvores seu ninho. Algumas pessoas se irritavam, não conseguiam sequer sentar nos bancos da praça. Entretanto, apesar dos constrangimentos, meu olhar se detinha teimosamente na beleza da revoada dos pássaros ao entardecer. E como diz Rubem Alves: Ainda haverá de vir um tempo em que os homens e a natureza conviverão em harmonia.
Portanto, cabe a nós refletirmos sobre os olhares que oferecemos todos os dias. Cabe a nós, através do olhar fomentar a paz e a alegria que tanto buscamos. Finalizo com parte do poema de Arnaldo Antunes:
“O seu olhar me olha… O seu olhar melhora o meu…”
Por uma humanidade melhor!