É uma honra homenagear Dona Hosana, uma mulher guerreira que muito contribui e contribuiu para o engrandecimento da história cotidiana da cidade. Dona Hosana detentora de vida pautada da sabedoria e cercada de amor pelos familiares e atinge seu centenário cercada por todos da sua prole.
Não poderia deixar de falar de Dona Hosana, apesar de não ter conversado pessoalmente com ela, não por falta de oportunidades, pois quando estava para nos encontrar, surge inesperadamente a morte de sua filha Maria. Assim ficou para outro ensejo. Pego assim, carona no texto escrito por seu neto Herlon Fernandes (escritor e poeta), editado no jornal O Caçuá edição setembro/2018 para fazer referência a Dona Hosana.
Dona Hosana, revela no texto escrito por seu neto Herlon, as peculiaridades de sua vida: “Sou uma mulher de um século, nasci em 13 de julho de 1918, tenho muito tempo de vida. Tenho vivido muito, mas a impressão que tenho é que tudo passou rápido demais. Nasci no sertão do Cariri, em um pedaço de chão conhecido como Barreiro Preto”. Dona Hosana revela no texto que desde muito cedo teve que aprender a lidar com as coisas da terra. Sua mãe ficara viúva muito cedo e pouco conheceu seu pai, mas sabe que ele era um homem doce e trabalhador.
O relato de Dona Hosana é permeado de detalhes históricos, no ano de 1927 quando tinha nove anos de idade, lembra que Lampião e seus cangaceiros fizeram posto em frente a casa da sua família. Mas sua mãe se apegou a Nossa Senhora. Mas diante do exposto, ela e suas irmãs ficavam disputando nas frestas da janela, para ver os detalhes “daquela trupe”. Mas, havia na região o Sr. Antônio Piçarra e aconselhou ao Cangaceiro Sabino que deixasse a viúva e suas cinco filhas sem perturbá-las. Recorda-se: “Permanecemos todo o dia com as portas e janelas fechadas: mamãe debulhando seu rosário e nós, na curiosidade de criança guardávamos os detalhes dos famosos mal feitores, que limpavam armas, alforges debaixo de um frondoso Juazeiro, generoso em sua sombra”. Dona Hosana guarda na memória a seca do ano de 1932, a seca que devastou a Região Nordeste, um período em que a fome veio a galope. “Logo chegaram noticias de que as tropas o Governo montaram um campo de concentração no Crato, a fim de dar guarida aos desabrigados a fim de dar guarida aos retirantes desamparados. Nesta época Dona Hosana era adolescente com os seus 14 anos de idade. Mas a história de Hosana não para por ai, durante uma madrugada resolvem fugir e retornar para casa, “a espera da graça de Deus, que nos libertasse com chuva e fartura”. O tempo passa e ano depois já na sua juventude encontra-se com o jovem Zé Milagres, em uma festa na cidade de Porteiras, os dois já se conheciam do Campo de Concentração. “Ele me reconheceu; reconhecemo-nos e foi amor a primeira vista”. A história de amor começa então entre os dois e anos mais tarde casam-se, precisamente no ano de 1937.
Dona Hosana declara que o apelidava carinhosamente de “neguim” e pelos relatos diz que ele era um plantador e produtor de fumo, o qual ficou conhecido em toda região. “Para ajudar nas despesas aprendi a costurar para fora. Não havia vestido ou roupa que não soubesse reproduzir em minha cabeça e minha máquina. Depois quando nos mudamos para Brejo Santo montei um Café ao lado de seu comércio”. Que determinação de Dona Hosana, exemplo de mulher empreendedora e emancipada para a época! Quanta memória, são 100 anos de vida! O texto desponta que Dona Hosana teve 11 filhos e que ouviam no velho rádio as noticias de que o mundo estava em guerra e que poderia se acabar. “Falavam de bombas que destruíam cidades inteiras; amedrontavam-nos com a possibilidade de uma arma maior capaz de destruir o mundo!... mas não nos faltava esperanças. Esquecíamos dessas noticias ruins quando o rei do Baião cantava nossas alegrias ou os seresteiros invadiam as ruas com suas violas enluaradas”.
Os anos foram passando, todos nós sempre ouvíamos falar em Zé Milagres e Dona Hosana. A Família de DonaHosana cresceu ainda mais com a chegada dos netos e bisnetos. “Guardo em um baú inúmeros convites de formatura, dos meus amáveis Doutores, que me enchem de orgulho!”. Há os momentos de tristeza em sua vida: “Muitos também se foram: Zé Milagres. Alice, Áurea, Maria... e tantos outros que se encontram hoje nas contas do coração e de Deus... A Velhice vem e traz, inevitavelmente, solidão, saudade e sabedoria. Se a vida nessa fase, às vezes é triste, ela traz a certeza de que o todo é maior, melhor e mais feliz. Sou uma mulher de fé.
Alcancei muitas graças. Visto branco durante todo o mês de maio em agradecimento a Nossa Senhora; preto, para o Padim Ciço Romão Batista; marrom para São Francisco. A Fé é a maior armadura que o homem possui. Sou emotiva, gosto de sentir saudades, de revisitá-las. De vez em quando estou perdida em lembranças; velhas fotografias; canções que me fizeram feliz em tempos longínquos e que cismo sempre em repeti-las... Nessas viagens eu encontro a certeza de que tudo valeu à pena, que a vida se multiplicou a partir de mim e que o sucesso vivido pelos meus é uma alegria que certamente me pertence. Se me perguntam se quero viver mais, é claro que quero! Viver é uma graça; certamente o maior presente de Deus.
Dona Hosana parabéns pelos anos bem vividos e pelo exemplo de amor a vida. Sua força só tem o que nos ensinar como mulheres deste século. Se fizéssemos uma analogia à linha do tempo histórica do país, quantos acontecimentos bons e ruins a senhora viveu e registrou em sua vida! Quantas canções, fatos políticos, sociais, humanos perpassaram por sua vida. Parabéns a toda sua família por tê-la como mãe, avó, bisavó, enfim como mulher e ser humano. Herlon, parabéns pela homenagem a sua avó neste texto belíssimo e grata por me permitir a publicação deste na coluna da Historiadora Fátima Alves no Blog do Farias.


