sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Leia a COLUNA DO DANILO LIMA (Direto de Roma)


O poder da tela

Existem muitas coisas boas para se aproveitar morando na Itália. É claro, existem algumas não tão boas assim (ainda falaremos sobre elas nesta coluna). Mas hoje quero ressaltar uma coisa que, para mim, é muito boa: a oportunidade de visitar lugares históricos que eu só conhecia através de fotografias. É justamente sobre o nosso hábito, cada vez mais comum, de fotografar absolutamente tudo que gostaria de conversar com você, caro leitor. Parece-me que estamos viciados em fotos! Em vê-las, e em fazê-las. As redes sociais, sabemos, é o grande estopim da proliferação desenfreada de fotos, que vão desde fotojornalismo, mensagens de bom dia, boa tarde e boa noite, passando por pratos de comidas, viagens e, claro, fotos de gatos!

Conto um fato que me fez pensar muito sobre isso. A primeira vez que fui ao Vaticano estava feliz e ansioso, dada a grande importância desse lugar: é o centro da cristandade (a Santa Sé Apostólica). O Vaticano é um pequeno país dentro da cidade de Roma, mas possui uma importância enorme, no que diz respeito à religião, à história e à arte. Por exemplo, os “Museus Vaticanos” e a “Biblioteca Vaticana” possuem acervos valiosos de toda a história da humanidade. O lugar mais simbólico e importante, dentro do Vaticano, é certamente a Basílica de São Pedro.

Pois bem, eu não via a hora de conhecer o lugar onde mora o Papa. E o grande dia chegou! O clima no Vaticano é de universalidade. São muitos turistas, todos os dias, de diversas partes do mundo. Como eu estava acompanhado de alguns padres paulinos, que moram na Cidade do Vaticano, entrei por um lugar privilegiado, não precisando enfrentar uma fila enorme. A Guarda Suíça foi a primeira coisa que chamou a minha atenção: as roupas, os gestos, a disciplina daqueles homens que têm a missão de proteger o Santo Padre. A Basílica de São Pedro é enorme, são necessários muitos dias para poder contemplar todos os seus detalhes. 

Mas o que quero, enfim, compartilhar é o seguinte: quando me aproximei da Pietà, a famosa escultura de Michelangelo, as muitas pessoas que estavam ali olhavam para a obra de arte através da tela de seus aparelhos celulares. Todos estavam preocupados em fazer dezenas de fotos e postá-las em suas redes sociais. Não estavam preocupados em contemplar a belíssima escultura. Terminada as fotos, partiam para fotografar outros lugares. Pensava comigo: “Essas pessoas viajaram milhares de quilômetros para ver as coisas através da tela celular!? Se é assim, era melhor ver as fotos na internet, em casa!”.

Em tempo: eu não sou contra a fazer fotografias. Eu também as faço. Elas são importantíssimas para as nossas recordações. O problema é que estamos vivendo em função das imagens fotografadas. Como se diz: “a diferença entre o remédio e o veneno é a dose”. Se vamos a algum lugar e não fazemos milhares de fotos, e não postamos nas redes sociais, é como se aquele momento não tivesse existido. Desculpe, Descartes, mas transformamos o seu “penso, logo existo” em “posto, logo existo”. Consideremos algo semelhante: muitas pessoas vão a shows e passam todo o espetáculo preocupados em fazer fotos e vídeos em seus celulares. Será que curtem, de fato, aquele momento? Se querem ter um registro, acho que seria melhor comprar o DVD, pelo menos a qualidade da gravação é mais alta!

São tantas as consequências que essa nova realidade está causando em nosso modo de viver. Por exemplo, o aumento da ansiedade e a da depressão. Muitas pessoas se sentem obrigadas a postar algo novo todo dia. E se o número de “likes” não é o esperado, vem a tristeza, a desilusão. Será mesmo que precisamos compartilhar nas redeis sociais todos os nossos momentos? Será que vamos deixar a tela do celular nos dominar completamente? Tenho medo do dia em que eu preferir olhar para uma tela, do que conviver com pessoas de carne e osso. Se esse dia chegar, o poder da tela venceu!

Você consegue passar um dia sem o seu celular? Bom final de semana a todos!

Danilo Alves Lima